Contos da Lia

Segunda-feira, Agosto 28, 2006
Todo dia morre um crítico

Mais um comentário ofensivo e hostil. E ela enlouquecia de raiva ao saber que o anonimato protegeria e que nesse novo mundo virtual não haveria qualquer punição. Livre arbítrio, liberdade de expressão. Liberdade de ofensa? Aparentemente sim. Já esperava que, mais cedo ou mais tarde, pré-adolescentes com muita energia e pouca atenção dos pais passassem seu tempo danificando sua página na internet. É o que eles chamam de *pixar* a página.

Por capricho de algum líder regional de coisa alguma, ela era vítima da raiva que os pré-adolescentes precisam extravazar. E não poderia mudar isso, pois era complicado convencer os outros (principalmente quando são muito jovens) que é inútil agredir para se autoafirmar. Teria de penar nas mãos de crianças retardadas até que elas enjoassem do brinquedo ou encontrassem outro Cristo para martirizar. E de vez em quando era divertido revidar os comentários sanguinolentos que podiam ser desde solicitações de chupadas até ameaças de morte virtual.

- Vamos detonar sua página!

Claro que não era escrito assim. A nova linguagem escrita usada pelos pré-adolescentes na internet excluía a maior parte das letras das palavras e substituia algumas por outras. O significado era o mesmo: te agredimos gratuitamente por que não temos maturidade para encontrar o problema em relação a você e resolvê-lo de maneira civilizada.

Um dia ela recebeu uma tecla mágica pelos correios. Era como um periférico que deveria ser instalado e poderia ser usado como uma tecla extra do teclado. Mesmo sem saber para quê servia a tecla, ela instalou. O programa de instalação explicava o funcionamento como: clique sobre qualquer link indesejável e o destrua. Ela usou no link de um dos pré-adolescentes que viviam despejando agressões nos espaços para cometários de sua página. Mesmo sabendo que o link do tal fulano não era real, ela clicou. Ouviu um *plic*, e a mensagem *Indesejável destruído* apareceu na tela.

Só para extravazar o estresse que causavam, e sem acreditar que a tecla realmente os destruísse, ela clicou sobre todos os links que os pré-adolescentes deixavam para assinar suas ofensas. Passou mais de uma hora nesse exercício, e imaginava que cada um deles sumiria pra sempre de sua caixa de comentários. Depois disso continuou seu trabalho no computador normalmente. Desconectou o novo equipamento de seu computador, desligou tudo e foi dormir.

No dia seguinte, em todos os jornais estava a mesma notícia assustadora: *Vários adolescentes morreram ontem enquanto usavam a internet.* Ela prestou mais atenção:

- Aparentemente mais de 30 adolescentes morreram ontem entre as 17 e 18 horas enquanto navegavam pela internet. Todos morreram misteriosamente da mesma maneira: sofreram uma forte pressão no crânio, como se algo esmagasse suas cabeças...

Ela riu. Riu muito. Riu durante o dia inteiro e, quando entrou na internet para ver seus sites, não havia nenhum comentário...

posted by Lia Drumond on 12:24 PM

Críticas:
Muito bom, Lia! Excelente! Ri muito. Quisera que fosse tão simples embora não deseje o mal a ninguém.
 
Um fim apropriado. Pena que não extermine toda a praga...
 
Não se esqueça lia você também já foi uma adolescente e pelo visto ninguém te matou por isso!
 
Achei essa crônica muito interessante. Você tem talento, parabéns.
Como crítica, apesar de aceitar esse final, esperava algo inesperado.
Pensei até que a blogueira nunca mais iria abrir um computador na vida. Imagine se outras pessoas também tivesse esse aparelho "miraculoso" e fizessem o mesmo com os comentários dela. Apenas imagine...
 
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